Estudo revela que violência por parceiro íntimo aumenta em até 21% o risco de nascimento de bebês pequenos e vulneráveis, mesmo quando os abusos ocorreram no passado

Foto: Felipe Carneiro
A violência doméstica deixa marcas que ultrapassam gerações. Um novo estudo publicado neste sábado (30), na revista científica eClinicalMedicine, do grupo The Lancet, mostra que mulheres que sofreram violência por parceiro íntimo — mesmo anos antes da gravidez — apresentam maior probabilidade de dar à luz bebês considerados “pequenos e vulneráveis”, uma condição associada à maior mortalidade neonatal e a consequências para toda a vida.
A pesquisa foi conduzida por Lisa Kent, Claire Kerr, Lorna Lawther, Kathryn M. Abel, Holly Hope, Krishnarajah Nirantharakumar, Kelly-Ann Eastwood e Aideen Maguire, de instituições como a Queen’s University Belfast, a The University of Manchester e a University of Birmingham. O trabalho analisou dados de 248.645 gestações ocorridas entre 2011 e 2021 na Irlanda do Norte, constituindo uma das maiores investigações populacionais já realizadas sobre o tema.
Os resultados revelam uma realidade preocupante: mulheres que relataram violência ativa durante a gravidez apresentaram um risco 21% maior de ter um recém-nascido vulnerável. Mesmo aquelas que relataram violência apenas no passado continuaram exibindo um risco 18% superior em comparação às mulheres sem histórico de abuso.
O peso de uma experiência traumática
Os pesquisadores utilizaram o conceito de Small Vulnerable Newborn (SVN) — ou recém-nascido pequeno e vulnerável — que reúne três situações de alto risco: nascimento prematuro, baixo peso ao nascer ou tamanho inferior ao esperado para a idade gestacional. Essa categoria concentra a maior parte das mortes neonatais registradas no mundo.
Segundo o estudo, dos quase 249 mil partos analisados, 11.388 gestações (4,6%) incluíram relatos de violência por parceiro íntimo. Destas, 3.713 correspondiam a violência ativa e 7.675 a episódios históricos.
O impacto sobre os bebês foi expressivo. Enquanto a taxa geral de recém-nascidos vulneráveis foi de 11,4%, entre mulheres que sofreram violência esse percentual saltou para 18,3%. Nos casos de violência ativa, chegou a 20,1%.
“A violência por parceiro íntimo, tanto atual quanto histórica, está associada ao aumento do risco de nascimento de bebês pequenos e vulneráveis”, concluem os autores.
Adolescentes concentram os maiores índices
O estudo identificou grupos particularmente vulneráveis. Entre adolescentes grávidas com menos de 20 anos, a prevalência de violência chegou a 12,2%, quase três vezes acima da média observada na população geral.
Também foram observadas fortes desigualdades sociais. Nas áreas mais pobres da Irlanda do Norte, 8,5% das gestantes relataram violência, enquanto nas regiões mais favorecidas o índice foi de apenas 1,9%.
Mulheres fumantes durante a gravidez apresentaram uma prevalência ainda maior: 13,8% relataram experiências de violência.
Para os pesquisadores, esses números indicam que a violência doméstica está profundamente ligada a fatores sociais, econômicos e de saúde que se acumulam ao longo da vida reprodutiva da mulher.
Saúde mental amplia os riscos
Outro achado importante diz respeito à saúde mental. As mulheres que relataram violência apresentaram índices muito superiores de transtornos psiquiátricos.
Entre aquelas sem histórico de violência, 41,2% tinham ao menos uma condição de saúde mental registrada. Entre as vítimas de violência, esse percentual alcançou 78,7%. Já a presença de múltiplos transtornos foi observada em 16,7% das mulheres que sofreram violência, contra apenas 2,3% das demais.
Os pesquisadores descobriram que a combinação entre violência e múltiplos transtornos mentais produz os piores resultados. Quando violência ativa e duas ou mais condições psiquiátricas coexistiam, 25,9% das gestações resultavam em recém-nascidos vulneráveis.
Mesmo assim, o efeito da violência não desapareceu após os ajustes estatísticos para saúde mental, idade, tabagismo, peso corporal e fatores socioeconômicos. Isso sugere que os mecanismos biológicos e sociais desencadeados pela violência podem exercer influência independente sobre o desenvolvimento fetal.
Um problema de saúde pública
A Organização Mundial da Saúde estima que entre 20% e 33% das mulheres sofram violência por parceiro íntimo em diferentes regiões do planeta. O estudo acrescenta uma dimensão frequentemente negligenciada: os efeitos da violência podem persistir muito tempo após o fim dos abusos.
“A divulgação de violência histórica continua sendo um marcador importante para o risco de nascimento de bebês vulneráveis”, observam os autores.
Para Lisa Kent e colegas, os serviços de pré-natal precisam deixar de enxergar a violência apenas como uma questão de segurança imediata e passar a tratá-la também como fator de risco obstétrico. Isso inclui treinamento em cuidado informado por trauma, ampliação dos mecanismos de identificação precoce e criação de redes de encaminhamento e suporte.
Consequências que atravessam gerações
Os autores defendem que a gravidez representa uma janela estratégica para identificar vítimas e interromper ciclos de violência. O período reprodutivo, argumentam, oferece oportunidades únicas para intervenção porque as mulheres mantêm contato frequente com os serviços de saúde.
Além disso, a descoberta de que adolescentes grávidas apresentam os maiores índices de violência sugere a necessidade de políticas preventivas voltadas às fases mais precoces da vida.
Ao final, a mensagem do estudo é clara: a violência doméstica não termina quando as agressões cessam. Seus efeitos podem permanecer silenciosamente registrados no corpo, na saúde mental e até mesmo no início da vida da próxima geração. Em um cenário global onde recém-nascidos vulneráveis continuam respondendo por grande parte das mortes neonatais, compreender e enfrentar essa conexão tornou-se não apenas uma questão de proteção às mulheres, mas também uma estratégia essencial para salvar vidas desde os primeiros momentos de existência.
Referência
Violência doméstica, múltiplas condições de saúde mental e risco de nascimentos de recém-nascidos pequenos e vulneráveis: um estudo de vinculação de dados populacionais sobre maternidade. eClinicalMedicineVol. 96 103997 Publicado: 29 de maio de 2026. DOI: 10.1016/j.eclinm.2026.103997